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Covid-19: ADUSC acusa prefeitura de “necropolítica” e suspeita de subnotificação proposital

Entidade que representa professores da UESC sobe o tom da crítica ao Governo Mário Alexandre na condução da crise sanitária atual. Para o secretário Geraldo Magela, nota da ADUSC é “agressiva”. 

Entidade que representa professores da UESC contesta escolhas da Prefeitura de Ilhéus na gestão da crise sanitária. Secretário classifica nota como “agressiva”.

Em nota de repúdio divulgada nesta segunda-feira, 27, a Associação de Docentes da UESC (ADUSC) afirma que existe “descaso no tratamento dos pacientes com Covid-19 no município” e que a gestão da crise, por parte da Prefeitura de Ilhéus, pode ser classificada como uma espécie de “necropolítica”.

A nota explica o uso da expressão:

“Entende-se o termo necropolítica a partir do conceito desenvolvido pelo filósofo e professor universitário camaronês Achille Mbembe, que o atribui ao Estado que escolhe quem deve viver e quem deve morrer”, diz trecho da nota (a íntegra segue abaixo).

O texto levanta a suspeita de que a Secretaria Municipal de Saúde estaria usando os testes rápidos de forma errada, supostamente de propósito, em pacientes com sintomas da Covid-19, para obter resultados negativos.

O mecanismo de testagem rápida mais comum detecta apenas anticorpos e não a presença do vírus nos pacientes. Ou seja, se um teste rápido é usado logo nos primeiros dias de manifestação dos sintomas da doença, é provável que o seu resultado seja negativo, porque o paciente ainda não desenvolveu anticorpos em quantidade suficiente para o exame detectá-los.

De acordo com a nota da ADUSC, esse teria sido o erro que a secretaria cometeu ao lidar com a contaminação de  um familiar de uma professora da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC).

O que diz a Secretaria de Saúde de Ilhéus

O Ilhéus Comércio telefonou para o secretário municipal de Saúde, Geraldo Magela, na tarde desta segunda-feira. Ele ainda não tinha conhecimento da existência da nota, que lhe enviamos em seguida, via WhatsApp.

Quando falamos que a ADUSC chamou a gestão realizada pelo governo de “necropolítica”, o secretário avaliou que essa palavra é “agressiva”.

Como estava prestes a entrar numa reunião, Magela solicitou que voltássemos a telefonar mais tarde. Ele pretende emitir uma nota em resposta à entidade que representa os professores da UESC.

Boletim

Até o momento, 123 pessoas que moravam em Ilhéus perderam suas vidas na guerra contra o novo coronavírus.

Leia a nota da ADUSC na íntegra.

NOTA DE REPÚDIO À SECRETARIA DE SAÚDE DE ILHÉUS

A Diretoria da Associação de Docentes da Universidade Estadual de Santa Cruz (ADUSC) vem a público repudiar a ação da Secretaria de Saúde de Ilhéus frente ao descaso no tratamento dos pacientes com Covid-19 no município.

Assim como o presidente Jair Bolsonaro, denunciado mais uma vez na Corte Internacional de Haia por ignorar orientações técnicas no combate ao coronavírus, a Secretaria de Saúde de Ilhéus e a Prefeitura vêm adotando uma necropolítica na cidade. Entende-se o termo necropolítica a partir do conceito desenvolvido pelo filósofo e professor universitário camaronês Achille Mbembe, que o atribui ao Estado que escolhe quem deve viver e quem deve morrer.

Primeiro, podemos citar as amplas críticas feitas pela Secretaria de Saúde à UESC, quando a mesma em uso de sua autonomia decidiu pela suspensão das aulas em março, no início da pandemia. Posteriormente, foram múltiplas as recomendações feitas pelo Comitê de Crise da UESC, do qual a ADUSC faz parte, e pelo Consórcio do Nordeste sobre a reabertura do Comércio em Ilhéus, durante a ascensão exponencial de casos de Covid-19 na cidade, que até mereceu uma ação do Ministério Público para frear um desastre maior. Recomendações que foram ignoradas na maioria das vezes. Além disso, a estratégia de morte adotada pela Secretaria é visível na mudança da apresentação dos dados nos Boletins Diários sobre os casos da doença em Ilhéus, a inconsistência dos dados locais com os da Secretaria de Saúde da Bahia (SESAB) e o forte indício de subnotificação por falta de testes.

Diante dessas observações, é absurdo pensar que a subnotificação é provocada intencionalmente pela Secretaria? Um caso ocorrido neste domingo (26), com uma professora da UESC, pode exemplificar a postura da prefeitura. Quatro familiares da docente foram ao Centro Covid de Ilhéus, em busca da realização de testes swab. Ela fica em casa com outros quatro membros já confirmados como positivos. Na sede, a Secretaria de Saúde se recusa a fazer os testes em pessoas que não estão com insuficiência respiratória grave. Após uma forte pressão da professora, o médico enfim emite a solicitação para realizar os testes. Porém, na recepção do Centro Covid, um dos exames swab é substituído pelo teste rápido, que tem uma grande possibilidade de falso negativo. Submetido a este teste rápido, um familiar da professora com sintomas e que mora com quatro positivados e mais outras três pessoas com sintomas, recebe o resultado negativo.

Esse caso nos faz refletir sobre a conduta da Secretaria no atendimento aos pacientes que chegam ao Centro Covid. A negação ao exame até o último momento pode ser interpretado como um modus operandi do setor. Por qual objetivo? É para diminuir o número de casos positivos na região e assim permitir a flexibilização de medidas como reabertura de comércio, liberação do acesso às praias e da circulação de ônibus? Quantos mais outros pacientes e cidadãos ilheenses sofreram o mesmo descaso por parte da Secretaria? Até a publicação dessa nota, a prefeitura não deu nenhuma satisfação sobre o caso.

Por fim, reafirmamos nosso posicionamento pelo retorno ao distanciamento social até que se configure um cenário mais seguro para a população. Vidas acima do lucro!

Ilhéus-BA, 27 de julho de 2020.

Diretoria da ADUSC

1 Comment

  1. Jabes diz que Marão combate epidemia de forma "irresponsável". Secretário responde | Ilhéus Comércio

    28 de julho de 2020 at 22:48

    […] Ontem, 27, a ADUSC divulgou nota de repúdio afirmando que a gestão da crise provocada pela Covid-19 em Ilhéus descambou para a “necropolítica” – leia aqui. […]

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