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Luciana Pauletti: “Já pensou se a Câmara de Ilhéus passar a ter apenas mulheres?”

Luciana Pauletti mostra a palma da mão com o x vermelho, signo que ajuda mulheres em situação de violência a pedir socorro. Foto: Instagram.

Luciana Pauletti costuma projetar a voz com firmeza ao falar sobre a inserção das mulheres na política. Em dez dias, assumirá oficialmente a condição de candidata a vereadora de Ilhéus pelo DEM.

Nos últimos quatro anos, ela criou a Associação de Moradores da Avenida José Luís da Fonseca e Adjacências. À frente da entidade, travou embate com a COELBA para exigir da concessionária compensação pelo impacto que a instalação de postes gigantes causou no bairro Savóia, na zona norte de Ilhéus. Assim se deu sua primeira participação mais efetiva na esfera pública local.

Do associativismo à vida partidária foi um pulo. Entrou no partido Novo, mas, ficou pouco tempo na legenda marcada pelo uso ostensivo da cor laranja.

Deixou a sigla para se filiar ao Democratas, partido que despontou como nova força política em Ilhéus, sob a liderança do empresário Valderico Junior, pré-candidato a prefeito.

No DEM, Luciana assumiu a presidência do núcleo Mulher Democratas, cargo que exerceu até ontem, 16, quando o transmitiu para a xará, Luciana Sampaio, a nova presidente do grupo. Pauletti entendeu que não vai poder se dividir entre as funções administrativas e a coordenação da própria campanha.

Na entrevista abaixo, concedida exclusivamente ao Ilhéus Comércio, a advogada e empresária Luciana Pauletti fala sobre o início da sua trajetória na política, cita referências acadêmicas e históricas sobre a presença das mulheres nos espaços de poder dominados por homens e lança a provocação que destacamos no título. Leia a íntegra.

Luciana, você gosta do livro Campanhas eleitorais para mulheres, da professora Luciana Panke. O que você aprendeu nessa obra que serve de referência para a caminhada como pré-candidata a vereadora pelo DEM?

Eu tive o prazer e a oportunidade de conhecer a professora Drª. Luciana Panke. O Democratas é o partido que mais investe em candidaturas femininas. Tem preparado as mulheres na formação política. No ano passado, o partido e a instituição Aliá Política fizeram seminários pelo Brasil. Salvador foi a última cidade da série. Lá, fomos recebidas pelo presidente nacional do Democratas, o prefeito ACM Neto, que disse assim: “O partido Democratas está com as portas escancaradas para a mulher”. Na palestra, a professora Luciana Panke falou sobre o cenário da participação feminina na política. Então adquirir o livro, que é uma coletânea de entrevistas, relatando tudo o que as mulheres encaram durante uma campanha. Para mim, é uma Bíblia no que diz respeito à campanha eleitoral para a mulher. Uma das perguntas que o livro levanta é justamente sobre as razões que levam as mulheres a disputar espaço na política. O fato de eu estar aqui hoje falando sobre política é uma oportunidade que foi criada. A gente precisa entender como chegamos aqui, considerando especialmente o cenário da América Latina. Por exemplo: em 1932 a mulher brasileira conquistou o direito de votar. Em outros países latino-americanos isso aconteceu mais tarde. Na Argentina, em 1947 e, no México, em 1953. Portanto, é importante a gente fazer essa leitura: estou aqui hoje falando sobre política porque outras mulheres lutaram por esse espaço antes de mim. Lá em 1927, as sufragistas criaram a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino. Se uniram e lutaram pelo direito de votar. Em 1928 o Brasil elegeu a primeira prefeita da América Latina, Alzira Soriano, no município de Lages, no Rio Grande do Norte. Em 1934, tivemos a primeira parlamentar federal eleita, Carlota de Queirós, que participou da Assembleia Nacional Constituinte. Apesar de sair na frente, o Brasil demorou muito para avançar em outras questões, a exemplo da política de cotas, que só apareceu no país em 1997, enquanto na Argentina isso se deu em 1991. É importante destacar que as cotas são de gênero. Como somos minorias na política, as pessoas falam em cotas femininas, mas a cota é para garantir a presença dos gêneros. Portanto, se a gente criar um partido formado com maioria feminina, teremos que ter, pelo menos, 30% de candidatos homens numa eleição. No México a gente já tem o princípio da paridade.

No seu cotidiano você já teve que lidar com situações que o livro apresenta como exemplos?

Sim. Vou dar um exemplo. Nós temos uma pousada. Certa vez, eu estava na recepção e um homem chegou querendo se hospedar. Informei que a diária custava cinquenta reais. Ele perguntou se o estabelecimento não tinha um homem para atendê-lo. Ainda disse que só gostava de negociar com homens, porque “mulher não foi feita para negócios”. Então fui ao meu marido e contei o ocorrido. Ele foi atender o sujeito e falou que o preço da diária era oitenta reais. O cliente disse que eu tinha falado cinquenta reais. Meu marido respondeu: “Então você devia ter feito negócio com ela”. E esse tipo de tratamento preconceituoso se repete na política, mas, na prática, se você observar, as mulheres têm tido excelentes resultados como empreendedoras e também na política.

Como é a sua relação com o Democratas?

O partido me acolheu. O nosso presidente municipal, Valderico Junior, é um homem que ouve as mulheres e quer saber de verdade o que nós pensamos sobre a cidade e a política. Assim como ACM Neto, ele promove a participação das mulheres na vida partidária. Por outro lado, ainda temos colegas de partido que não conseguem perceber essa transformação. Por isso a professora Luciana Panke traz o conceito de violência eleitoral. Um exemplo: mesmo depois do movimento sufragista, apenas as mulheres casadas tinham direito ao voto, as solteiras, dessa forma, estavam num lugar ainda mais à margem,

Você destacou a importância de reconhecer que, ao longo da história, outras mulheres lutaram para conquistar direitos políticos para as contemporâneas. Apesar das conquistas, há um longo caminho a ser percorrido, basta olhar a composição da Câmara de Vereadores de Ilhéus, que não teve nenhuma mulher eleita nas duas últimas eleições. Você avalia que a cidade Ilhéus, sob esse aspecto, está ainda mais atrasada do que a média da política brasileira?

Nós ainda não tivemos uma prefeita. Tivemos uma vice-prefeita [a ex-deputada estadual Ângela Sousa foi vice-prefeita no terceiro mandato do ex-prefeito Jabes Ribeiro (2000-2004)]. Não será ainda em 2020 que teremos uma prefeita. Em 2016, 1291 municípios brasileiros sequer elegeram uma vereadora. Ilhéus está nesse rol. Em Ilhéus, a última vereadora foi eleita em 2008. Então, sim, o município está atrasado sob esse aspecto da presença feminina nos espaços de poder. O Democratas está trabalhando muito para mudar isso. O partido está investindo em capacitação e formação política para as mulheres. Eu acho que em 2020 nós vamos dar um salto. A população tem boas opções para eleger vereadoras. Já pensou se a Câmara de Ilhéus passar a ter apenas mulheres?

Como você avalia a ideia de criação de cotas de gêneros para a eleição propriamente dita, garantindo vagas no Legislativo? Você defende isso?

Sinceramente, não. A gente precisa de mulheres e homens na política, mas, homens e mulheres que desejem ser políticos, que é o meu caso. Eu não fui convidada para ser candidata a vereadora. Eu quis. Porém, avaliando a situação de hoje, as dificuldades para a promoção do incentivo à igualdade de gênero nesses espaços, eu acho que a cota para a composição das chapas é importante, mas, já a cota para garantir a vaga, acho que não é o momento. Penso que as mulheres devem se colocar e, se não tivermos esse avanço, talvez o caminho seja mesmo criar as cotas, mas, respondendo: agora, sou contra. Sabe por quê? A política não precisa só de homens e mulheres, não é só isso, a política precisa de pessoas capazes, independente do gênero.

Você me disse que ninguém lhe convidou a entrar na política para cumprir um papel de figurante. Eu pergunto: o que lhe motivou a entrar na política?

No livro Campanha eleitoral para mulheres, a professora Luciana Panke demonstra que primeiro as mulheres começam a entrar na política por laços familiares. Elas normalmente têm um marido ou pai político. Por viver nesses bastidores, começam a participar e a protagonizar essa política partidária. Também se aproximam com a experiência escolar. O estudo desperta isso, assim como a militância em movimentos sociais, em associações de moradores e ONGs, por exemplo, ou ainda por ter uma atuação profissional dentro da política. Eu me encaixo na terceira possibilidade. Ou seja: fazia política e não sabia. Vivi a minha vida quase toda longe da política. Como a maioria dos brasileiros, eu dizia assim: “Ah, eu não gosto de política, não. E política presta? Nenhum político presta”. Eu vivia essa mesmice. Eu era igual a todo mundo”. Em 2016, nos estudos da Quaresma – eu sou católica -, ao lado do nosso bispo diocesano Dom Mauro Montagnoli, uma frase do Papa Francisco me despertou muito. Ele disse: “É preciso sair da sua existência para desenvolver um olhar misericordioso de amor ao próximo”. Então eu pensei: “Como cristã, eu tenho que olhar para o lado, para meu vizinho”. Comecei a me organizar para criar uma associação de moradores, porque nós tínhamos uns problemas no bairro. Naquele momento, é importante dizer isso, eu estava ali como cidadã. Me tornei presidente da Associação de Moradores que criei e comecei a trabalhar, reivindicando melhorias para o meu bairro das instituições públicas e privadas. Foi através desse movimento que eu ingressei na política. Aí você quer mais. Não quer parar aí, porque começa a entender que precisa ser a voz de alguém, a voz feminina de alguém.

A associação teve um embate com a COELBA por causa dos postes gigantes da rede elétrica. Houve algum tipo de compensação ambiental?

Na verdade, houve uma contrapartida voluntária. Você acorda de manhã na Avenida José Luís da Fonseca, que tem 1,3 km, onde moro, e depara com aqueles postes enormes. Na época nós não tínhamos uma associação de moradores atuante. Nós não tínhamos representação. Foi criado um comitê de moradores, que começou a cobrar explicações da COELBA. A gente conseguiu que a obra parasse, mas, não conseguimos a mudança do projeto, ou seja, que o cabeamento fosse subterrâneo, como é na Avenida Itabuna e em outras partes da cidade. A obra – LD138K – foi feita para interligar a subestação do Iguape e a subestação da Conquista. Ela vem subterrânea, descendo da Conquista, passa pela Avenida Itabuna, e os cabos seguem subterrâneos até a Barra, onde ela sobe através de um poste enorme. Ali começa a parte aérea do cabeamento. Eles alegaram que o custo da obra [subterrânea] aumentaria muito, sairia por três milhões de reais. A rede aérea custou trezentos mil reais. Como eu sempre digo: o bem coletivo prevaleceu, afinal a obra serviu para evitar as oscilações de energia que nós tínhamos. Portanto, você favoreceria 160 mil pessoas da cidade e prejudicaria três mil. A prefeitura disse: “Bota no Savoia, eles vão ter que aceitar”. A gente não tinha voz. Por meio da associação, nós travamos um diálogo com a COELBA. Demonstramos que os postes desvalorizaram os imóveis, por causa do impacto na paisagem urbana. A COELBA então ofereceu uma contrapartida voluntária. Eles não eram obrigados a fazer isso, mas, reformaram a quadra poliesportiva do bairro. Também iniciariam a construção de uma praça, mesmo sabendo que isso era obrigação da prefeitura. Em 2017 nós reinauguramos a quadra poliesportiva mais bonita cidade. Foi custeada exclusivamente pela COELBA, sem nenhuma ajuda financeira da gestão municipal. A associação contribuiu com o paisagismo e a rampa de acesso. Colocamos nosso suor e nosso esforço. A gestão pública apenas autorizou, e seria um ato de desinteligência não fazer isso, mas, infelizmente, a gente se acostumou a ouvir o prefeito dizer que foi ele quem fez a quadra.

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